Lugar do Outro

Lugar do Outro foi criado em 2010/2011 com o apoio do Fomento à Dança da Cidade de São Paulo e circulou por cidades do interior do estado em 2013 com o apoio do ProAc Circulação de Dança. Em Lugar do Outro, a Cia. Damas em Trânsito e os Bucaneiros reflete sobre a vida coletiva e a vida individual, a independência do sujeito e a sociabilidade do grupo, como as relações entre coletivos e indivíduos se dão e como elas constituem e são constituídas pelos espaços. A que distância dos outros deve um indivíduo manter-se para construir com eles uma sociabilidade sem alienação, uma solidão sem exílio? A separação entre o eu e o outro é realmente clara? É possível viver isoladamente? O coletivo pode anular as diferenças individuais? Qual a importância de compartilhar uma experiência?

A cia. iniciou a pesquisa olhando com atenção para si própria, para seu modo de viver-junto como coletivo de artistas, investigando mais profundamente como se dão as experiências de individualidade e coletividade na sua organização e método de trabalho, nas técnicas corporais e de construção dramatúrgica que utiliza para a criação. Para expandir seus questionamentos para além de sua realidade imediata, o grupo procurou pesquisar também as relações cotidianas em contextos mais amplos e também diálogos e referências teóricas com especialistas de outras áreas do conhecimento como a física, a antropologia, a fenomenologia e a arquitetura.
Ao longo da criação percebemos o quanto o social está presente em todos os instantes da existência humana, uma vez que existe o outro (o diferente) e a realidade dos encontros com o outro. Esta inquietação a respeito dos espaços e das relações interpessoais surgiu da experiência vivida nos trabalhos anteriores, onde a rua e espaços públicos urbanos de grande circulação de pessoas eram, além de cenário para a dança, elementos fundamentais para a criação cênica. A cia. percebeu que a arquitetura, a forma de organização e a funcionalidade do lugar, sua dinâmica cotidiana, sua memória e história, sugeriam sensações e imagens que eram captadas e vivenciadas por aqueles que o habitavam, potencializando a criação de diferentes formas de relação entre esses indivíduos. Da mesma forma, as qualidades das relações entre as pessoas também construíam e transformavam os espaços. Nos espetáculos de rua, o espectador podia fruir a peça ora só espiando por entre frestas e pessoas, ora sentindo-se muito próximo e íntimo da cena; podia também colocar-se distante dela ou apenas observar um instante da cena sem interromper sua caminhada.
Instigada por estas experiências, em Lugar do Outro a cia. propõe a construção de qualidades diversas de relação entre os intérpretes, a cena e o público. Acomodado numa plateia móvel, o público participa, junto com os intérpretes, da composição dos espaços que delimitam de forma peculiar os locais para cada cena, e pode assisti-las de diferentes pontos de vista, experimentando estar mais ativo e integrado à peça.

Concepção: Cia. Damas em Trânsito e os Bucaneiros; Direção: Alex Ratton Sanchez; Intérpretes-criadores: Carolina Callegaro, Ciro Godoy, Clara Gouvêa, Gregory Slivar e Laila Padovan; Trilha sonora: Gregory Slivar e Cia. Damas em Trânsito e os Bucaneiros; Figurino: Larissa Salgado; Criação e operação de luz: Cristina Souto; Cenário: Cia. Damas em Trânsito e os Bucaneiros; Cenotécnico: Leonardo Benício.