Duas Memórias

Duas memórias foi criado em 2009 com o apoio do Fomento à Dança da Cidade de São Paulo e com o ProAc Novas Produções em Dança. Em Duas Memórias, a pesquisa corporal e de movimento está focada no trabalho de ocupação de espaços públicos históricos da cidade de São Paulo como a Estação da Luz da CPTM, a Casa das Rosas na Avenida Paulista e o Páteo do Colégio, por exemplo, e na obra de Chiquinha Gonzaga. Conceitualmente, baseia-se principalmente em duas referências: o pensamento do fenomenólogo Gaston Bachelard em seu livro “A poética do espaço” e o material denominado “Sintonizando as partituras” da bailarina e pesquisadora Lisa Nelson, com o qual o grupo teve contato a partir de workshops com a artista.
Segundo Bachelard, os espaços carregam memória e sugerem sensações e imagens que podem ser captadas e vivenciadas por aqueles que o habitam. Partindo desta idéia, os intérpretes-criadores procuram estar permeáveis a estes estímulos do espaço, podendo transformá-los em movimento e/ou som. As partituras propostas por Lisa Nelson dão respaldo para que os intérpretes possam buscar este estado de permeabilidade corporal, ampliando os sentidos e a percepção do ambiente. Nesta “Dança de Ocupação”, o espaço (sua arquitetura, sua dinâmica cotidiana e sua memória) é o elemento fundamental para a criação cênica em tempo real.
Partindo então destas referências teóricas e práticas, o grupo se debruça sobre os espaços escolhidos com o intuito de absorver um pouco da memória neles contida, composta por elementos históricos e arquitetônicos, bem como pela dinâmica cotidiana, pelas pessoas que habitam ou transitam pelo lugar e pelos sons do ambiente. E tudo isso se torna material fundamental para a criação do repertório de movimento e musical, por meio dos quais o grupo cria imagens poéticas que resignificam o espaço no momento da cena.
Para a pesquisa musical, o grupo buscou também inspiração na pianista e compositora Chiquinha Gonzaga (1847–1935), que misturou ritmos europeus e africanos para criar uma música popular e brasileira, promovendo o diálogo entre a música erudita e popular. Algumas das obras dessa compositora foram adaptadas para a formação instrumental do grupo (piano, violino, escaleta e percussão) e são executadas ao vivo, tanto em sua versão original, como transformadas por meio da improvisação. Elementos externos à música contribuem para a criação e constante renovação do repertório, como, por exemplo, ruídos do ambiente, a acústica de cada espaço e a movimentação dos bailarinos. Para além de realizar uma “releitura” de Chiquinha Gonzaga, o que importa ao grupo é evocar a memória dos espaços por meio de uma musicalidade inerente a uma determinada época.
A improvisação é a linguagem pesquisada pelo grupo como meio de construção do repertório de movimento e musical e utilizada na própria cena, como fim, proporcionando ao espetáculo um frescor e uma vivacidade atuais e efêmeros, pois a cada instante, imagens se constroem e se dispersam no tempo e no espaço também como memória. A improvisação é para a cia. uma ferramenta de discurso sobre a relação entre a contemporaneidade – o momento presente – e a memória e história, abordada nesse projeto do ponto de vista de uma época (final do século XIX e início do século XX) e da música de Chiquinha Gonzaga.
A relação com o público também interessa ao grupo e faz parte da pesquisa. Assim, o grupo coloca seu trabalho, uma obra aberta, em diálogo e construção em conjunto às pessoas que o assistem, em sua maioria os transeuntes presentes no local no momento da apresentação, ao mesmo tempo em que propõe a elas um olhar menos passivo e mais questionador sobre a obra e seu próprio cotidiano.

Concepção: Cia Damas em Trânsito e os Bucaneiros; Direção: Alex Ratton Sanchez; Intérpretes-criadores: Carolina Callegaro, Ciro Godoy, Clara Gouvêa, Laila Padovan e Larissa Salgado; Músico convidado: Rafael Montorfano; Figurino: Iara Wisnik e Larissa Salgado.